O que é o Virtual?, de Pierre Lévy, e Cultura da Interface, de Steven Johnson. Dois capítulos dessas obras são analisados neste texto, a fim de discutir, comparar, criticar e tirar um posicionamento sobre como a digitalização, mais precisamente o computador, modificou a forma de leitura e escrita no mundo contemporâneo.
Os dois autores, principalmente Johnson, se utilizam de experiências pré e pós-virtualização da leitura para mostrar as diferenças que essa máquina proporciona aos seus usuários. Portanto, parto eu, também, deste ponto, pois compartilho de várias experiências e pensamentos semelhantes a esses autores, algumas vivenciadas entre ontem, 22 de abril, e hoje, 23 de abril de 2006.
É clara a dificuldade que se tem na atualidade de escrevermos nem que sejam algumas linhas sem a presença de teclas, tela e um processador de texto. Devido a conflitos familiares com minha irmã, digamos assim, não pude iniciar esta análise em um computador quando precisava, no sábado 22 de abril. Disse-me ela: “Por que não faz o trabalho no papel e depois passa para o computador, daí pouparia tempo?" No primeiro momento tive vontade de rir, pois além do trabalho dobrado, estava justamente um dos objetos deste estudo, ou seja, a dificuldade que me seria imposta ao realizar semelhante tarefa.
O que fiz? Não fiz, essa é a resposta. Não admitiria e nem conceberia tal perda de tempo e inconveniência. Sabia que meu trabalho não teria a mesma qualidade e perderia com facilidade minha paciência diante dos rabiscos, dores no pulso e rasuras que esse procedimento acarretaria. Por quê? Johnson explica na página 103 de seu livro. Conta sobre a impotência de escrever com papel e caneta e a desintegração da sua letra ao longo dos anos à frente da tela.
Eu, a cada vez que escrevo, sinto a mesma dificuldade. Ao escrever uma prova “à próprio punho", sinto dores na mão que me fazem parar minuto a minuto. Meus textos em papel mais parecem um receituário médico. Minha mãe, cada vez que vê minha letra diz estar pior e relembra o tempo em que escrevia com letra cursiva, na segunda ou terceira série do ensino fundamental.
Mas não sinto falta daquele tempo. O mundo deve acompanhar as modernidades e fazer bom uso delas. A tecnologia veio para ficar e o processador de textos, objeto de estudos das duas obras também, cada vez mais inteligentes e facilitando o trabalho do usuário. Acho errada a perspectiva de alguns para o fim da escrita em papel. Há espaço e utilidades para as duas, porém é inegável a agilidade e conforto proporcionados pelo computador. Com a globalização e essa sede e avalanche de informações que circulam pelos meios de comunicação atuais, nada mais justo que as coisas melhorem para aqueles que fazem, admiram e gostam de comunicação.
Johnson fala sobre a transição: entre a escrita em papel (relutância ao computador) e a digitalização do texto. Até experimentarmos o uso desse meio, nos sentimos inseguros, pois o desconhecido gera esse sentimento. Escrevemos na horizontal, agora passa-se a vertical, tela luminosa e teclas ao invés de papel e caneta, janelas sobrepostas, dentre outras coisas. Pois bem: até meu ensino médio, utilizei papel e caneta para realizar os trabalhos da escola, mesmo já possuindo computador.
Não sei bem o que me fazia decidir por esta prática, mas somente após algum tempo de uso da máquina, me apropriei de sua tecnologia. Naquela época escrevia no computador com muita lentidão, não dominava os suportes gráficos e minha máquina não era nenhuma “maravilha” de agilidade e velocidade.
No final do Ensino Médio, com maior consistência após entrar na universidade, me adaptei e entrei de cabeça na “onda” da computação e navegação na internet. No caso de Johnson, ele fala da criação de uma Interface chamativa e provocante, um achado. Foi quando milhões de pessoas aderiram ao uso do computador como se fosse um objeto que falasse as suas línguas. Enfim, os programadores encontraram a chave para atrair os consumidores: cores, figuras, janelas, uma nova linguagem, etc.
A comprensão do texto através da Interface gráfica
Johnson relata que ao escrevermos nessa nova Interface, mudamos nossa forma de conceber nossa leitura e escrita. São novas ferramentas em um novo meio. Antes as pessoas (e ele se refere a si mesmo) ficavam arranjando as frases para que nada saísse errado ao transpor para o papel. Já no computador, qualquer palavra é jogada no momento em que a pensamos, criamos frases e depois desfazemos, apagamos, alteramos, de acordo com o objetivo que se quer chegar. Não existe mais o medo de errar, apagar ou rasurar.
O autor critica a maneira como essa interface gráfica é compreendida. Segundo ele, há uma excessiva confiança nos princípios básicos da interface. Johnson explica que a linguagem textual na interface está se reduzindo e os criadores têm isso como uma meta para a sua evolução. Cada vez menos textos são encontrados, apenas janelas, imagens, animações e atalhos. Não contesto a tese do autor, mas não acredito que essa linguagem vá se perder. É apenas uma maneira de facilitar o entendimento do usuário, que será e é o autor dos textos. O escritor, nos meios digitais, está acostumado com figuras e ferramentas que o auxiliam na criação de seus textos.
Isso agiliza e anda de acordo com o que os tempos modernos pedem: economia de tempo e facilidade de acesso. Mas desde que não seja sinônimo de preguiça e redução das criações próprias.
Inteligência artificial
Nessa questão, Johnson explica um projeto de um novo processador de textos “inteligente”. É o que chamamos hoje de inteligência artificial. Para muitos, é difícil entender como funciona os comandos de um computador e como uma máquina consegue realizar tantas tarefas inatingíveis a um homem. Isso fica mais claro com as provocações de Pierre Lévy, da obra que falaremos a seguir. O virtual, ou digamos, aquilo que está visível, mas não palpável, que existe, mas não pode ser atingido por nós e que não é exatamente aquilo que se vê, sente ou escuta, nos causa estranheza.
Pensamos em uma imagem no espelho, ou mesmo as letras que estão aparecendo na tela do computador enquanto teclamos. É real? Eu diria que sim. Mas o que é real, as letras, a tela, a linguagem, ou o código binário do computador? Não podemos toca-lo, mas podemos interpreta-lo, entende-lo, vê-lo. A imagem é o seu reflexo, mas não é você. Ao tocar no espelho não sentirá nada mais que algo plano, frio e rígido. A mesma coisa na tela. As imagens e letras nada mais são do que relações programadas pelo computador decorrente de um sistema binário que comanda toda a existência da máquina.
É algo compreensível, mas não palpável. Steven Johnson resume isso na análise dos estudos de comparações feitos por computadores sobre a obra de alguns autores, aprofundando-se no autor Shakespeare. O computador não passaria apenas a localizar palavras e joga-las aleatoriamente na tela, como nas ferramentas de busca e localizar. Ele passa a ver diferenças entre um documento e outro, podendo selecionar, agrupar e identificar vários documentos correlatos. As semelhanças estilísticas de textos fazem com que o microprocessador encadeie os textos num mesmo contexto. É o virtual, o potencializado auxiliando, organizando e interagindo com o real.
De acordo com Johnson, com esse novo método de comparação escolhemos um documento e pedimos para o computador encontrar outros semelhantes. Com isso “o trabalho sujo de refinar e buscar por palavras-chave é delegado ao computador”, resume Johnson.
Johnson finaliza relatando que a mudança mais expressiva se daria ao sistema semântico de arquivos proporcionar ao computador muito mais controle sobre a organização de nossos dados. Definiríamos categorias amplas, mas o computador tomaria as decisões sobre o destino dos arquivos. As novas pastas “visão”, criadas pelo sistema de comparação V-Twin, desenvolvido pela Apple, fariam inclusive julgamentos sobre a organização dos arquivos, que seriam para os usuários fazerem. Ainda por cima virtualiza e põe, ainda mais, em outro plano, essas “visões”, pois são elementos ilusórios criados pelo microprocessador, podendo o ser humano apenas programar as buscas.
Ciência e virtualização
A obra de Pierre Lévy, O que é o Virtual?, mostra, no capítulo estudado, não tanto as práticas de utilização do texto e a maneira como é vista a linguagem digital. Lévy destaca principalmente os conceitos e como essa linguagem é incorporada no nosso cotidiano. Primeiro, através da medicina, depois com o texto. Com as facilidades da entrada da digitalização, da globalização e das novas tecnologias em geral, muitas ciências tomaram pra si essas praticidades. A medicina foi uma e Lévy explica através dela a virtualização proposta pelos computadores e meios digitais.
Com a era digital, é possível ter “quase” a perfeita percepção da realidade. Com o telefone, a televisão e a medicina por imagem, por exemplo, fica clara essa transferência de sentidos reais. No caso da medicina por imagem, o virtual no mais puro sentido da palavra pode ser visto. Lévy afirma que “as imagens médicas nos permitem ver o interior do corpo sem atravessar a pele sensível, sem secionar vasos, sem cortar tecidos”.
Na televisão vemos todos os dias imagens dentro de telas, porém sabemos que não são ali, e nem naquele momento que aquele fato aconteceu, mas mesmo assim temos a projeção de uma realidade já vivida, fazendo com que nos tornemos conhecedores do que acontece em outro plano, longe do local onde nos encontramos.
No caso do telefone, essa projeção é em tempo real. Esse meio de comunicação dá a sensação de que todos possam estar em vários lugares simultaneamente. Podemos estar aqui e lá ao mesmo tempo: é a chamada realidade virtual.
A atualização textual
No subcapítulo, Virtualização do texto, Lévy traz o texto como sendo um objeto virtual desde os primórdios. O texto é independente de um suporte específico. O autor destaca muitas vezes a expressão “atualização”, referindo-se as múltiplas versões, traduções, exemplares, e cópias deles. Compreendi que o texto é muito mais do que letras, palavras, frases, tinta, papel ou uma imagem na tela de um computador, e sim, o significado que cada um lhe põe. Daí, as atualizações. A cada processo de ressignificação de um texto, outros textos se criam e isso fica mais explícito com o advento da internet e com o hipertexto.
O que sentimos ao ler um texto, nossas concepções, modificam ou atualizam o conhecimento. É isso que nos difere de uma máquina e é isso que Johnson traz à tona com a questão da inteligência artificial: o poder que as máquinas vão ter sobre nossas ações ao lidarmos com o computador e com os textos que utilizaremos para nossas pesquisas e “atualizações” de conhecimento.
A obra de Lévy, perdoe-me a expressão, cabe como uma luva para conflitar e completar o texto de Johnson. Fica mais clara a exterioridade e, realmente, a janela que se abre ao ligar a máquina. Com a Internet e os avanços na web, essa janela se pluralizou e multiplicou a gama de troca de informações textuais. O texto, portanto, não é uma única realidade e sim, a realidade de cada um. Concluo, então, que o texto não pode ser um fim em si próprio, mas uma cadeia cognitiva infinita.
Relacionando com o capítulo estudado da obra de Johnson, o entendimento da virtualidade nos explica e define a relação usuário x computador e emissor x receptor. O modo com que recebemos o texto digitalizado, principalmente com a internet, nos remete a um plano exterior que não conhecemos totalmente, mas sabemos que existe. Com a invasão de sites, blogs, chats, etc, na web, essa troca se tornou global, mais virtual e constante. Vemos, lemos e até criamos atualizações diárias sobre variados assuntos. Talvez por isso a necessidade de se criar um mecanismo de seleção inteligente para destacar documentos e textos mais plausíveis em relação ao contexto desejado, como traz Johnson na sua obra.
O virtual de Lévy
Existe diferença entre o que é virtual para muitos e o que Lévy quer dizer como virtual. Eu mesmo considero a potencialização e a desterritorialização, no contexto da informática, como virtual. Para Lévy, a interpretação e atualização do texto é que podem ser consideradas como virtualização. São as relações entre escrita e memória. A exploração da potencialidade que o computador proporciona é considerado o virtual. A virtualização está no poder ler aquele texto e se sentir satisfeito, ou montar um texto a partir de vários documentos, ou poder recriar outro, tudo na mesma tela, no mesmo local e espaço de tempo.
No papel, podemos rabiscar, escrever nas margens, fotocopiar, recortar e colar, mas temos algo concreto em nossas mãos. A relação com o meio é que diferencia e faz do digital, virtual. Para atualizarmos um texto em papel necessitaríamos de mais tempo, papel, tinta e sairíamos do plano e do objeto inicial.
Hipertexto e Interface Gráfica
Lévy trata em seu texto sobre o hipertexto e as interfaces gráficas em que está inserido. O autor trata o hipertexto como “um espaço de percursos possíveis, uma leitura particular”. Através de nós, links, etc, o leitor pode fazer um caminho de leitura, atualizando e virtualizando seu conhecimento. O navegador cria o seu texto. É como se fosse o próprio editor do seu hipertexto. E cada vez que lê, pode determinar o caminho a percorrer, interagindo diretamente com o meio. Na web, o leitor passa a não precisar carregar aqueles pesados volumes de livros, revirar páginas e receber informação pronta.
Pode-se dizer enfim que os capítulos analisados das obras dos dois autores são complementares. Johnson revela as transformações que a linguagem e o texto no computador proporcionaram aos seus usuários. Para isso, enfocou seus estudos na interface gráfica, algo que para ele foi fundamental nessa nova maneira de encarar o texto. Já Lévy, encarou na sua obra novos conceitos sobre a virtualização do texto no computador, além de trabalhar em grande parte do capítulo com o conceito de hipertexto.
Para ele, embora muito semelhantes, potencial e virtual se diferem pela humanização que o segundo conceito implica. A questão da desterritorialização da palavra, passagem do texto do papel para a tela, não tem tanta importância quanto o como esse texto é lido e interpretado.
Embora em vários dicionários e em textos da web estes dois termos se equiparam, para o autor o homem tem a capacidade de virtualizar o que a máquina potencializa. Ele tratou de propor uma diferença entre os termos para humanizar o virtual. Entendo a maneira como ele põe seu conceito, porém discordo. Se abrirmos o computador ou quebrarmos a tela, não podemos pegar o texto e utiliza-lo, ele está apenas naquele plano e para aquele fim. Ele transcende o real, trazendo sensações reais, sendo assim virtual.
Acho que poderia ser criada outra expressão para o que Lévy chama de atualização e virtualização do texto. Pode ser pretensão de minha parte, mas acho que não confundiria tanto os conceitos. Também não sei até que ponto o autor não queria provocar realmente sobre o conceito.